Domar o Dragão – controle da fisiologia corporal

Me fizeram uma pergunta por email sobre como controlar a ruborização. A resposta pode ser útil a mais pessoas e decidi publicá-la, inclusive porque as recomendações podem ser adaptadas para uma grande gama de questões de controle psicossomático. A pessoa autorizou a publicação da pergunta e da resposta.

“Sempre tive um pouco de timidez, e depois de um evento um pouco traumático na adolescência (fui criticado e riram de mim uns dez minutos dentro da sala da aula, essas maldades de adolescentes), a situação piorou. Perdi o conforto em situações sociais (principalmente ao falar em público,) gerei insegurança interior e o pior, ficava vermelho bem fácil, por quase nada.

Depois disso, procurei resolver esses problemas. Fui em psicólogo, comecei a me sentir cada vez melhor (já estava sentindo bem mais seguro e tal) e algum tempo depois conheci um médico que me indicou a PNL.

Li então o livro PNL – A Nova tecnologia do sucesso. Achei o livro excelente, o li com muita atenção e fiz todos os exercícios. Com tudo isso, mudei muito. Hoje me sinto bem mais seguro, satisfeito; gosto (por incrivel que pareça) de falar em público e coisas do gênero. Resumindo: sinto que passei da água pro vinho.

Apesar de ter segurança e me sentir bem pra falar em público e outras situações sociais, sinto que ainda fico um pouco vermelho quando tenho que me expor (o que me deixa insatisfeito).  Li uma resposta sua a uma questão parecida no fórum de PNL, onde explicou:

Muitas vezes o corpo aprende a fazer algo e continua a fazê-lo de forma autonômica, mesmo quando os pensamentos associados não se fazem mais presente. É uma indicação da independência do inconsciente, quando ele aprende que há algo a ser feito em determinada situação. As situações e interpretações conscientes mudam, mas o aprendizado inconsciente permanece…

Trabalhe com a Linha de Tempo e despotencialize a reação psicossomática – você pode usar com o vermelhão – que vem associado ao nível cognitivo da reação anterior.

Reforce o trabalho, agora de forma mais focada na Linha de Tempo, e na reação inconsciente. A ressignificação em seis etapas é um trabalho mais “consciente”, isto é, puxa o inconsciente para o consciente, e não é a mais apropriada para lidar com reações somáticas autônomas. Trabalhe de forma mais auto-hipnótica, isto é, leve o seu consciente para o inconsciente. Isso se faz bem com a Linha de Tempo e o devaneio dirigido. Puxe mais a emoção e menos a razão, no tom do exercício.

Pratique “flutuar” por sobre a sua Linha de Tempo e localizar o último episódio de ruborização que teve. Flutue acima e um pouco antes dele e reassocie-se.

Analise as submodalidades específicas do estado desencadeante – não do estado ruborizado, mas do estado “pré-ruborizante”, por assim dizer….

Liste, registre e anote: que emoções estão implícitas? Quais são os sentidos dominantes, no consciente e no inconsciente? Que metaprogramas pode identificar? Que crenças e valores podem descrever aquele estado do eu que dispõe desta reação aprendida neste determinado contexto?

Em outro momento, retorne ao exercício e “pule” deste ponto identificado para outros pontos no passado, que pertençam ao mesmo estado do eu. Você pode identificá-los ou sentí-los por um certo contexto peculiar, parecido entre eles, como se fossem elos de uma corrente…. São momentos em que o seu “estado-do-eu” escolhe um comportamento aprendido similar, há uma constelação de comportamentos, sentimentos e congnições semelhantes.

Já conhecendo bastante deste estado, retorne mais ao passado e reaprenda o que deseja reaprender nas experiências mais antigas deste estado-do-eu. O importante não é combater ou destruir este estado, e sim torná-lo mais flexível, rico e cheio de recursos, correto?

Mostre a este estado, em uma posição dissociada (terceira posição, ou posição de mentoração) que valores e crenças considera úteis para ela.

Vivencie junto a este estado, em uma posição associada paralela (segunda posição, ou posição de coaching) que submodalidades considera adequados que ela experimente para ampliar a experiência que já possui.

Depois reassocie-se plenamente a este estado (primeira posição, ou posição participante) e experiencie a emoção plena deste estado-do-eu e verifique como as mudanças pretendidas estão sendo introjetadas.

Após, faça Ponte-ao-Futuro, retornando pela Linha do Tempo até um futuro próximo, reexperienciando a experiência desencadeante da questão e checando, espontânea e naturalmente, quais as respostas viscerais que a sua constelação mente-corpo apresenta.

Acho que o que acontece comigo é exatamente isto: o meu inconsciente aprendeu a ficar vermelho de forma tão autônoma , que é dificil pra mim mudar esta situação.

Aí então fiz o recomendado por você no fórum:  fiz o exercício uma vez com a Linha do Tempo, tentando trabalhar essa reação psicossomática…

Ontem fiz o meu  primeiro teste depois do exercício:  fui em um casamento cheio de gente no qual eu era padrinho e tinha que ir várias vezes lá na frente da igreja pra tirar fotos, etc.. com todo mundo me olhando, e senti que a minha reação psicossomática (ficar vermelho) melhorou um pouco, apesar de ainda ficar um pouco vermelho.

A minha pergunta é a seguinte: Será que eu posso continuar fazendo o exercício da linha do tempo pra diminuir cada vez mais essa reação psicossomática, ou não adianta ficar repetindo o exercicio??

Quanto à sua  pergunta “Será que eu posso continuar fazendo o exercício da linha do tempo pra diminuir cada vez mais essa reação?”  a resposta é: Sim. A prática de um exercício como esse pode ter um efeito cumulativo.

No entanto não é necessário que este se torne uma prática regular. O exercício de linha do tempo tem componentes cognitivos e emocionais que não necessitam muita repetição. Repita-o apenas mais algumas vezes – umas quatro ou cinco pode ser o suficiente para instruir a sua mente consciente e sua mente inconsciente superior naquilo que você precisa saber/sentir a respeito da questão.

Em resposta à segunda questão, o que sugiro é que adicione um exercício mental para aumentar o seu controle consciente do seu sistema simpático e parassimpático. Este sistema regulador é que controla efetivamente os mecanismos automáticos, tais como os da ruborização.

Você teve a reação que criou uma reação fisológica do sistema nervoso autônomo: a ruborização. No passado, quando estávamos na época das cavernas, aumentar a circulação sanguínea periférica (ruborização) poderia preparar o corpo para um ataque físico, facilitando o afluxo de sangue para os músculos, oxigenando-os, aumentando o poder e força para lutar ou fugir, bem como facilitando que o maior afluxo de sangue cicatrizasse melhor os possíveis ferimentos de uma luta física.

Quando ocorreu aquele evento impactante na escola, sua mente adolescente não teve acessos a recursos suficientes de como se comportar ou reagir para enfrentar aquela situação. Então, pediu socorro ao sistema límbico – a parte do cérebro mais antiga, que nos defende de agressões físicas de forma automática. E esta, não sabendo se deveria lutar ou fugir – já que a mente consciente superior disse que todas estas reações seriam inadequadas – limitou-se apenas a criar uma “prontidão de resposta”, através da ruborização.

Esta reação é considerada um atavismo – isto é, uma reação fisiológica do nosso sistema cerebral de reação de luta-e-fuga dentro do sistema límbico – que não tem muita utilidade ou praticidade no mundo moderno.

Reconheça conscientemente isso – e saiba que pode, sim, aprender a conversar com estas partes mais antigas e profundas de sua mente, e re-ensiná-las a melhor forma de reagir.

A questão é que a forma para falar com as partes mais profundas de nossa mente é a linguagem das emoções. Você não pode dizer para elas: “não se ruborize”". Isto só cria temor e mais ruborização.

O que é importante transmitir é Confiança. Uma sensação de proteção e tranquilidade. E a melhor forma de fazer isso é com práticas de dissociação e reassociação entre as partes mais cognitivas e as mais primitivas, e utilizar isso para se comunicar com estas partes.

Pense que esta parte de nossa mente, muito antiga, ainda está muito próximo da natureza animal. Todos nós temos um animal dentro de nós.

Pense de uma forma: como treinaria um pequeno cachorrinho? Com carinho ou com punição? Tentaria ganhar a confiança dele ou exerceria uma autoridade dominadora?

Algumas correntes filosóficas dizem que todos temos um Dragão – a parte animal -, uma Criança – a parte emocional – , um Guerreiro – a parte volitiva, que decide – e um Sábio – a parte intuitiva – em nosso interior.

Quando lida com esta parte da mente, está domando o seu Dragão Interior.

Por isso, o exercício que sugiro é muito simples.

Relaxe, entre em um estado meditativo. E depois visualize um pequenino animal dentro de sua mente. Este animal não precisa necessáriamente ter a forma de um dragão. Ele toma várias formas, criadas pela sua Imaginação. Se preferir, adote a forma de um pequeno cachorro, ou gato. Ou outro animal do qual goste. Eu, por exemplo, adotei a forma de um pequenino macaquinho, e gosto de dizer que converso com o meu Primata Interior.

Atraio-o para o seu lado, com estímulos, elogios e pequeninas pelotas de comida – imaginárias, é claro, mas em outros momentos do seu dia, pode imaginar que qualquer pequena refeição é uma oferenda para o seu animal interno, pois ele está agindo bem.

Veja-o e sinta-o mentalmente se encontrando próximo de você. Depois, ensine-os alguns truques. Como complemento sugiro que leia um livro sobre adestramento de animais, e perceberá como é fácil adestrá-los. O principal é ser paciente e ir em pequenas etapas. E demonstre sempre carinho, não punição. O segredo para adestrar animais é sempre recompensando com pequenos estímulos qualquer reação na direção do que se quer, mesmo que seja algo mínimo, e apenas ignorando – não punindo – aquilo que não se quer.

Perceba como este animal interno é curioso, e gosta de aprender coisas novas. Crie a ATITUDE MENTAL certa em relação ao seu animal interno, as partes do seu cérebro mais antigas, primitivas, atávicas: elas não precisam ser dominadas, e sim adestradas, apoiadas, e reagem em cooperação com você, tal como um cavalo bem adestrado, ajudando-o a ir mais longe…

Depois, combine com o seu animal interior algumas palavras de ordem. Pode combinar uma palavra para dormir bem à noite e outra palavra para acordar e se sentir bem desperto pela manhã. O principal não é só a palavra, mas a emoção e a confiança que adota junto da palavra. Esta palavra é ao mesmo tempo uma âncora e uma autorização mental e emocional para uma reação.

Após praticar um pouco com comandos nos quais não esteja sentindo pessoalmente alguma dificuldade, tais como dormir confortavelmente ou acordar se sentindo muito bem, pratique um comando para se manter calmo, tranquilo, relaxado, em qualquer situação que deseje. Imagine sentir o seu coração batendo normalmente, sua pele morna e confortável, sem qualquer aquecimento desnecessário. O importante não é só imaginar, mas SENTIR o seu animal interior percebendo que isto é o certo, o correto. Não adianta só pensar, deve-se sentir a reação dele, aprendendo que isto é o melhor para ele.

Associe esta sensação com uma palavra. Eu sugiro a palavra “CALMO”. São comandos impositivos sim, tais como usaria com um pequenino animal de estimação. E o seu animal interior, o seu corpo, as dimensões mais primitivas de sua mente. Esta é a linguagem correta para ele.

Adestre o seu animal interior – o poderoso Dragão – durante uma ou duas semanas. E recompense-o por pequeninas melhoras. Não reclame ou se sinta impaciente se ainda sentir alguma vermelhidão. Sempre dê reforço positivo, não negativo. Se  perceber alguma vermelhidão e ficar irritado, estará enviando uma comunicação conflitante para o animal interior. Está dizendo a ele que não acredita que ele seja capaz de controlar algo tão simples como a reação fisiológica da ruborização. Isto é uma idiotice – seu corpo controla o bater de seu coração, a sua respiração automática, o regular de cada uma de suas células, tudo ao mesmo tempo. Como não seria capaz de controlar algo tão simples? Ele só não o faria pelo controle consciente porque aprendeu no passado a fazer do outro jeito. Tenha paciência e persista – e sempre estimule positivamente quando houver alguma reação positiva, e ignore quando houver uma reação inadequada.

Com esta prática, em um mês ou dois terá as reações corporais do jeito que escolher. E estará em harmonia com todo o seu corpo e sua mente.

Leave a Comment